Durante o inverno, é comum escutarmos afirmações como: “frio causa gripe”, “tomar sorvete adoece”, “andar descalço dá pneumonia”, “vai pegar um resfriado se sair sem casaco”, ou “tomar algo gelado nesse frio vai te deixar gripado”.
A percepção popular associa diretamente o frio ao surgimento de doenças respiratórias, mas até que ponto isso é verdade? Esses mitos populares atravessam gerações e, embora bem-intencionados, muitas vezes distorcem a realidade sobre as doenças respiratórias. A crença de que o frio é diretamente responsável por doenças respiratórias persiste, mas será que ela se sustenta diante da ciência?
Neste artigo, vamos explorar os principais mitos relacionados ao inverno e às doenças respiratórias, com o objetivo de esclarecer, com base em fontes confiáveis e estudos atualizados, o que realmente pode proteger sua saúde respiratória durante os meses mais frios.
Mito. O frio, por si só, não causa doenças. O que acontece durante o inverno é um aumento na circulação de vírus respiratórios e um maior confinamento das pessoas em ambientes fechados e pouco ventilados, o que facilita a disseminação desses agentes.
Segundo a American Lung Association (2023), o que ocorre durante o inverno é um aumento de infecções respiratórias, como gripes e resfriados, provocado pela maior concentração de pessoas em ambientes fechados e com pouca ventilação, facilitando a transmissão de vírus. Ademais, o ar seco e frio prejudica a barreira natural de defesa das vias respiratórias, ressecando a mucosa nasal e afetando a função dos cílios, estruturas que ajudam a eliminar partículas inaladas (MedicineNet, 2022).
De acordo com o Dr. Jean Gorinchteyn, infectologista e ex-secretário de Saúde de São Paulo, o frio não adoece, mas sim, “reduz a umidade do ar e aumenta a concentração de poluentes e alérgenos no ambiente, o que agrava doenças pré-existentes” (Einstein, 2022). A queda da temperatura também contribui para a redução da resposta imunológica local das mucosas, favorecendo a entrada de vírus e bactérias no organismo.
A exposição ao frio pode ainda provocar vasoconstrição e inflamação das vias aéreas, favorecendo quadros como bronquite e rinite (PMC, 2021). O Instituto Israelita Albert Einstein também esclarece que a queda de temperatura e a baixa umidade relativa do ar podem comprometer as defesas naturais do organismo, o que pode contribuir para a maior ocorrência de doenças respiratórias, MAS SEM QUE O FRIO SEJA O AGENTE CAUSADOR DIRETO E JAMAIS DE FORMA ISOLADA (Einstein.br, 2022).
Além disso, segundo o Ministério da Saúde (2021), a maior propagação de doenças respiratórias no inverno está relacionada à baixa umidade do ar e proximidade física em locais fechados, como escolas, transportes públicos e ambientes com ar-condicionado, e não diretamente às temperaturas baixas.
Outro mito bastante comum é o de que tomar sorvete ou bebidas geladas pode “dar gripe” ou causar infecção de garganta, especialmente em crianças. No entanto, isso não é verdade. A Sociedade Brasileira de Pediatria afirma que a ingestão de alimentos frios não é, por si só, fator causador de infecções. O que pode ocorrer é um leve desconforto local em crianças mais sensíveis (Famivita, 2023; Terra.com.br, 2023).
Segundo a médica pediatra Dra. Viviane Lopes (Famivita, 2024), bebidas e alimentos gelados não causam doenças respiratórias. O que pode acontecer, especialmente em crianças com predisposição alérgica, é um leve desconforto ou irritação na mucosa da garganta, mas sem relação direta com infecção viral ou bacteriana.
A plataforma Terra (2019) também reforça que o sistema imunológico é responsável por combater infecções, e não a temperatura dos alimentos consumidos. Portanto, manter uma alimentação equilibrada e cuidar da higiene das mãos e superfícies é muito mais eficaz para prevenir doenças do que evitar alimentos frios.
Estudos apontam que é a exposição a vírus e bactérias, e não a temperatura do alimento, que provoca doenças. Uma pesquisa publicada na SciTechDaily demonstrou que a percepção de risco de alimentos frios está mais ligada a crenças culturais do que a fatos científicos. No entanto, bebidas extremamente geladas em grandes quantidades podem causar laringoespasmos ou cãibras faríngeas temporárias, mas não infecciosas. ESTES ESPASMOS DOLOSOSOS, APESAR DE NÃO REPRESENTAREM DOENÇAS INFLAMATÓRIAS OU INFECCIOSAS, ACABAM DANDO FORÇA AOS MITOS E CRENÇAS RELACIONADAS AO FRIO (ABC News, 2022).
Essa dúvida é bastante frequente e se baseia em uma verdade parcial. O frio em si não causa rinite ou sinusite, mas atua como um fator desencadeante de crises, especialmente em pessoas alérgicas.
A Harvard Medical School também explica que, em baixas temperaturas, a imunidade local do nariz é reduzida, pois as células de defesa e os movimentos ciliares ficam menos eficientes, o que pode facilitar a instalação de patógenos (Verywell Health, 2022). De acordo estudo apresentado no site do laboratório Sanofi (2024), a mudança brusca de temperatura estimula os nervos da mucosa nasal, desencadeando reações como espirros, coriza e congestão. Isso é mais perceptível em locais com ar-condicionado ou ambientes frios e secos.
A médica Dra. Thaís Chaves, especialista em alergologia, explica ao Programa Viva que a mucosa nasal responde ao frio com vasoconstrição, dificultando a eliminação de secreções e favorecendo inflamações nos seios da face (Programa Viva, 2024). Assim, o frio não “cria” a doença, mas agrava os sintomas em quem já possui predisposição.
Alguns comportamentos aumentam o risco de infecções respiratórias no inverno:
Esses fatores propiciam o acúmulo de vírus, bactérias e alérgenos, facilitando a transmissão e agravamento de doenças respiratórias.
Por outro lado, pequenas atitudes podem fazer grande diferença:
Essas medidas são recomendadas pelo Ministério da Saúde (2021) e contribuem para fortalecer a imunidade e reduzir a exposição a agentes infecciosos.
Embora suplementos não substituam uma alimentação saudável, alguns nutrientes são reconhecidamente importantes para o sistema imunológico:
Contudo, a suplementação deve ser orientada por um profissional da saúde, conforme a necessidade de cada indivíduo. Não há evidência sólida de que suplementos previnam diretamente gripes ou resfriados, mas ajudam no funcionamento adequado do sistema imune (Einstein, 2022).
Em pessoas alérgicas, especialmente com rinite e asma, algumas práticas são essenciais para prevenir crises:
Essas práticas são amplamente recomendadas por alergistas e otorrinolaringologistas como forma de prevenção e alívio de sintomas.
O inverno, apesar de trazer baixas temperaturas, não é o vilão das doenças respiratórias. O verdadeiro desafio está na forma como nos comportamos durante esta estação. Ambientes fechados, baixa umidade do ar e descuidos com a higiene pessoal e ambiental são os grandes responsáveis pela proliferação de vírus e agravamento de quadros alérgicos.
Mais importante que evitar o frio ou alimentos gelados, é fortalecer o organismo com uma alimentação adequada, manter ambientes bem ventilados, higienizar mãos e objetos, e adotar práticas simples, mas eficazes, como lavagem nasal e limpeza do ar-condicionado.
Neste inverno, escolha a verdade, adote hábitos saudáveis e proteja sua saúde com conhecimento e atitudes conscientes.
AUTOR: Daniel R Alves J. Especialista de treinamento em vendas, atenção farmacêutica e vacinação. Farmacêutico Bioquímico: CRF SP 39673
Todas as informações redigidas neste artigo, possuem as seguintes referências:
ALBERT EINSTEIN. Inverno e os efeitos em nosso organismo. Disponível em: https://www.einstein.br/noticias/noticia/inverno-e-os-efeitos-em-nosso-organismo
FAMIVITA. Água gelada para criança faz mal? Disponível em: https://www.famivita.com.br/conteudo/agua-gelada-para-crianca-faz-mal/
TERRA. Faz mal tomar gelado no frio ou com gripe? Disponível em: https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/criancas/faz-mal-tomar-gelado-no-frio-ou-com-gripe
ALLEGRA. Mudança de temperatura causa rinite? Disponível em: https://www.allegra.com/pt-br/entendendo-as-alergias/mudanca-temperatura-causa-rinite
PROGRAMA VIVA. Rinite e o inverno. Disponível em: https://www.programaviva.com.br/saude-tratamento/alergias/rinite-e-o-inverno
G1. Saiba os 8 hábitos que contribuem para a boa saúde respiratória em casa. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/itapetininga-regiao/especial-publicitario/um/troque-todos-por-um/noticia/2019/05/23/saiba-os-8-habitos-que-contribuem-para-a-boa-saude-respiratoria-em-casa.ghtml
GOV.BR. Saiba como evitar doenças respiratórias no inverno. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/dgh/noticias/2021/saiba-como-evitar-doencas-respiratorias-no-inverno
American Lung Association. Impact of Dry, Cold Air on Lungs. Disponível em: https://www.lung.org
VERYWELL HEALTH. Does Cold Air Make You Sick? Harvard Medical School. Disponível em: https://www.verywellhealth.com
ResearchGate, PMC, National Geographic. Research on cold, dry air and respiratory mortality.
SciTechDaily. Parental Beliefs vs Evidence on Cold Drinks. Disponível em: https://scitechdaily.com
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Live Science, ResearchGate. Benefits of vitamin D on respiratory infections.
Wikipedia/NIH. Common cold: causes and prevention.
MedicineNet. Cold constriction, cilia function and bronchial inflammation.